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A EXIGENTE E NECESSÁRIA VIDA NO ESPÍRITO: O EXEMPLO DO ATLETA

Por Francisco Elvis Rodrigues Oliveira

Nas corridas de um estádio, todos correm, mas bem sabeis que um só recebe o prêmio. Correi, pois, de tal maneira que o consigais. Todos os atletas se impõem a si muitas privações; e o fazem para alcançar uma coroa corruptível. Nós o fazemos por uma coroa incorruptível. Assim, eu corro, mas não sem rumo certo. Dou golpes, mas não no ar. Ao contrário, castigo o meu corpo e o mantenho em servidão, de medo de vir eu mesmo a ser excluído depois de eu ter pregado aos outros (I Cor 9, 24-27).

 “O Brasil é o país do futebol”. Quem nunca ouviu ou mesmo já usou esta expressão? A paixão do nosso povo por este esporte é tamanha que até já foram incorporadas ao nosso vocabulário cotidiano diversas expressões referentes a este mundo. Tais sentenças constituem um verdadeiro “léxico futebolístico” que são empregadas para explicar ou fazer analogia a algum fato, evento ou acontecimento.

Por exemplo, quando se pretende narrar que alguma tentativa estava na iminência de dar certo e que, por algum revés, não chegou a obter êxito, utilizamos a frase “estava na cara do gol”, ou ainda se diz que “essa bateu na trave”. O contrário também pode acontecer. Se algo logra sucesso, precisamente nos instantes mais críticos, onde quase estariam esgotadas as tentativas, disparamos, com alívio, que tudo terminou bem “aos 45 do segundo tempo” (Ufa!). E se uma pessoa é mais áspera ou incisiva quando se dirige a alguém, tratando de forma muito direta, indelicada, chegando a faltar com a educação ou respeito quando lhe fala, pode-se dizer que esta pessoa “entrou calçando”.

Essas e outras expressões compõem, portanto, o nosso quadro teórico cultural-desportivo. De modo muito semelhante – evidentemente que guardando as proporções e contextos históricos e culturais –, a cidade de Corinto a que São Paulo se refere no texto que lemos no início, também possuía uma grande paixão pelos esportes, em particular pelas modalidades de atletismo: corrida, luta, hipismo, salto, arremesso de dardos e assim por diante. São Paulo entra na mentalidade e preferência daquele povo, para, a partir disso, anunciar o Evangelho de Nosso Senhor.

Corinto era uma cidade portuária grega situada entre o Mar Egeu e o Mar Adriático. Ali Paulo conheceu Áquila e Priscila, seus companheiros de missão, com quem ficou hospedado durante os 18 meses de sua ação evangelizadora naquele lugar. Tempo para que Paulo pudesse perceber a importância que o esporte exercia naquela região, os chamados jogos ístmicos, que se realizavam a cada dois anos.

Penso que devemos constantemente pedir a Deus esta inteligência evangelizadora para anunciar Jesus de um modo sempre novo, renovado, dinâmico, mas sempre autêntico, original e verdadeiro. Tudo isso seguramente ancorado na Escritura, Tradição e Magistério, a fim de conseguir tornar, de fato, a verdade tão antiga, sempre nova (Santo Agostinho). É isto que a Igreja chama de Nova Evangelização. Não se trata de “enfraquecer” a mensagem do Evangelho, deixando-o “light”, mais palatável à sociedade pós-moderna, senão que trata-se de enxergar o mundo e a história a partir da perspectiva bíblica e não meramente o contrário – como propõem alguns –, olhar a Bíblia a partir da história. Afinal, tudo que é humano pode ser evangelizado, pode receber o anúncio salvífico de Jesus.

Ora, uma vez que São Paulo valeu-se desta condição, também podemos lançar mão do nosso gosto pelo futebol e pelo esporte, em geral, para algumas alusões e inserir o anúncio do Reino.

Quando, no texto bíblico que lemos acima, o Apóstolo fala da corrida e da premiação, temos em mente que naquele tempo o prêmio que os atletas recebiam era uma espécie de coroa feita de folhas de pinheiro, ou ainda, de zambujeiro (um tipo de oliveira), salsa, louro, e até mesmo um tipo de aipo selvagem seco. Seja como for, dentro em pouco, estas plantas murchariam, configurando-se na coroa “corruptível”. Embora mais duradoura, as medalhas entregues atualmente nas olimpíadas e toda premiação decorrente ainda assim são perecíveis e transitórias comparadas à gloria que um dia virá e a vida nova e eterna a que todos somos chamados. Afinal, “que vale ganhar o mundo inteiro e vir a perder a vida eterna?” (Mc 8, 36).

Tanto nos esportes em Corinto quanto nas olimpíadas de hoje, o prêmio é algo visível, que está posto diante dos olhos. Quando, em Corinto, os atletas corriam, este ficava em lugar bem visível, de ponta a ponta, a fim de que o atleta o visse e continuasse a correr motivadamente. Para os cristãos, nosso prêmio, coroa e glória, embora não pareçam visíveis – pois falamos de coisas espirituais –, não deixam de ser concretos e reais, mas está nossa vitória em fazer a Vontade de Deus e acolhermos a Salvação de Nosso Senhor. É Ele! É Jesus o nosso tesouro! É para Ele que nos dirigimos, em direção a Ele corremos e junto dEle queremos encerrar e consumir nossos dias até o último fôlego!

Somos, pois, neste sentido, atletas de Cristo. Os atletas constituem uma categoria diferenciada e com estilo de vida bem peculiar. Para ser um bom atleta nos jogos ístmicos, os competidores deveriam passar por uma austera alimentação e severa preparação. Muitos se alimentavam de comidas simples, como figos secos, nozes, queijo fresco, pão e não bebiam vinho. Todos eles buscavam o domínio de seu próprio corpo. Não é diferente das exigências dos treinamentos dos atletas da atualidade. Além da atividade física, há todo um trabalho mental, motivacional e comportamental. Fala-se do “espirito olímpico”, que o atleta é um exemplo de perseverança e inspiração – dentro e fora da competição – e assim por diante. Ora, o que é isso senão aquilo que chamamos, os cristãos, de testemunho de vida? O cristão é convidado a ser bom exemplo, dentro e fora das quadras – ou dos quadros – da Igreja, mas em todos os contextos em que vive.

A toda hora vemos aprimoramentos e melhoramentos tecnológicos nos esportes, com intuito de potencializar a performance dos atletas. Exemplo disso, vemos nas vestimentas usadas nas provas de corrida e natação. Feitas sob medida, acompanhando os movimentos e necessidades daquela modalidade, elas conferem aerodinâmica e velocidade ao desportista. Desse modo, eles ficam cada vez mais leves e mais rápidos e, para isso, utilizam cada vez menos acessórios e embaraços. Também na antiguidade, os atletas procuravam levar o mínimo possível para as provas.

Imagino que este simples fato tem muito que nos ensinar. Precisamos nos desembaraçar de tudo que nos prende em nossa corrida rumo ao céu: pecados, vícios, apegos, comodismos e conformismos. Desapegarmo-nos de tal modo daquilo que nos rouba de Deus que, no dia de contemplarmos sua Sagrada Face, possamos estender as mãos vazias, em sinal de que nos demos inteiramente pelo Reino e não retivemos os talentos para nós mesmos, senão que os colocamos a serviço dos outros. Sinal, ainda, de que fomos desapegados com as coisas do mundo.

Quando o atleta alcançava a vitória, aproximava-se um arauto que era incumbido de anunciar aos expectadores o nome e procedência do vencedor, ao que a multidão aplaudia entusiasmada. Hoje, os microfones e todo sistema midiático ampliam o alcance deste anúncio e o nome do vitorioso pode ser acompanhado em todo o globo. De semelhante modo, quando encerrarmos nossa carreira, depois de termos guardado a fé e recebermos a coroa da vitória (cf. II Tm 4, 7-8), que tenhamos a graça de escutarmos nosso nome sendo proclamado no livro da vida e ouvirmos o Senhor nos chamando e dizendo: “Vinde benditos de meu Pai” (Mt 25, 34). E assim, haverá uma grande e alegre festa no céu (cf. Lc 15, 7).

Portanto, apressemo-nos urgentemente em evangelizar a todos, mas também sejamos diligentes nos cuidados com nossa salvação pessoal, cuidando do nosso corpo, sendo disciplinados e temperantes. Nos serviços e missões que desenvolvemos, não percamos o olhar do nosso tesouro – Jesus, nosso Sumo Bem – e correr até Ele prosseguindo sempre decididamente (cf. Fp 3, 16), saibamos suportar as privações e renúncias em prol do um bem maior e eterno e, no ocaso da vida, recebermos a coroa incorruptível da vida eterna e bem-aventurada.

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