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ADORAR: A BELEZA DO CÉU E O CONHECIMENTO DE DEUS

O homem possui duas vidas: uma imaginária e outra verdadeira. Esta é uma tese do pensador francês Blaise Pascal. Para ele, uma vida é imaginária, adornada com fingimento e embelezada para a admiração dos outros; a outra vida – a verdadeira – é aquilo que realmente somos, o nosso próprio ser[1]. Muitas vezes o ser humano corre o risco de conduzir sua vida apenas para manter as aparências, descuidando-se, assim, da vida verdadeira.

Também as Sagradas Escrituras nos falam de uma vida verdadeira, onde não haverá mais aparências, mas tudo será revelado, tornado claro, sem confusão e poderemos conhecer totalmente (cf. I Cor 13, 12), onde não haverá mais choro, nem morte, nem dor (cf. Ap 21, 4). Foi para esta vida verdadeira que todos nós fomos destinados. É a vida eterna. É o paraíso. É o céu.


Tudo que vivemos e fazemos nesta terra precisa sê-lo tendo em vista o céu. Embora não pretenda nem me sinta capaz de explicar ou realizar grandes elaborações do que seja esta realidade, gostaria de destacar, no entanto, exatamente este aspecto: que o céu é uma realidade! Talvez não um lugar geográfico, fisicamente localizado (pelo menos não do modo como experimentamos o espaço), mas também não apenas e simplesmente uma situação ou um estado. É uma espécie de lugar sem lugar e tempo sem tempo. Lugar e estado de plena comunhão com Deus e adoração permanente diante de sua santa presença.

Quando falamos do céu parece que imediatamente vem ao nosso coração uma saudade de algo que ainda não vivemos, como uma saudade do amanhã, do que está por vir. Ficamos mais reflexivos, imaginando como será a vida no mais além, na eternidade. Mas, podemos nos perguntar: “como sentimos saudades de algo que não ocorreu ainda”? Não receio em dizer que foi o próprio Deus quem semeou em nós essa saudade do céu. Encontramos em Santo Agostinho, nas suas Confissões, uma ideia semelhante. Em diálogo com Deus, diz o santo: “fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti” (1, 1). Em cada um de nós há, pois, um rastro de Deus, uma semente do céu.

Ainda mesmo no ventre materno podemos experimentar este vestígio do céu. Jesus, ao se encarnar no seio de Nossa Senhora fez do seu ventre um verdadeiro céu: ouvindo as batidas do coração de sua mãe, recebendo o alimento necessário, ouvindo Maria e José dizendo o quanto o amavam. Ali, Nosso Senhor teve todas as condições para o seu desenvolvimento físico. Ao se encarnar em Maria, Jesus fez do ventre materno um paraíso para que todos nós, os seres humanos, também pudéssemos experimentar o “gostinho” do céu já na terra desde a nossa mais tenra idade. Para que ao sair de lá, aquela experiência de amor ficasse tão marcada em nós que a todo custo quiséssemos retornar e passássemos toda a vida com o desejo de “voltar” ao céu.

Inevitável não nos recordarmos daquilo que Jesus disse ao duvidoso Nicodemos: “Necessário vos é nascer de novo” (Jo 3, 7). Este retorno ao céu, seria o novo nascimento de que fala Jesus, aquele que nos permite ver o Reino de Deus (Jo 3, 3). A exemplo de Nicodemos, não se trata de voltar para o útero da mãe, mas de buscar de todo coração e toda alma aquilo se experimentou ali, pois muito maior é a segurança e a felicidade reservada para os benditos do Pai na definitiva Pátria celeste.

O problema é que o demônio tratou de escrever em nossos corações uma série de mentiras e que nos fizessem esquecer de buscar o céu. Ou pior, transformando este paraíso aqui na terra em um lugar nada agradável (penso aqui, por exemplo, nas mães que fumam, bebem ou se drogam durante a gestação, nas que apanham de seus companheiros, ou que maldizem os filhos ainda em suas barrigas). O que deveria ser a primeira experiência de Deus do ser humano, incutindo em nós um vivo desejo do céu, pode se converter em um verdadeiro inferno. E tudo isso, somado com os pecados que cometemos ao longo da vida, rouba de nós a experiência do céu e o desejo de para lá irmos.

É preciso pedir que o Espírito Santo apague dos nossos corações estas mentiras e restaure em nós o desejo de uma vida divina, uma vida no Espírito. Talvez um primeiro passo seja devolver ao homem moderno a verdadeira imagem de Deus que Jesus veio revelar: “Quem vê a mim, vê o Pai” (Jo 14, 9). Jesus não apenas chama a Deus de Pai, mas Papai, Abbá, Paizinho. Tal é a relação de amor entre o Pai e o Filho. Tal é a relação que Jesus nos convida a desenvolver com o Papai do céu, com o Abbá do céu.

Diria que a experiência do céu passa ainda pelo conhecimento de Deus. O Catecismo nos ensina que “o homem é capaz de Deus” (n.º 27). Em Jesus todo o acesso à vida divina foi restabelecido e podemos conhecer o Pai ao conhecer o Filho. Os santos e grandes orantes nos ensinam um caminho de perfeição nesta busca de conhecimento: a oração. A oração como via de conhecimento de Deus. Sim, pela oração, mas não uma oração meramente ritualística, mecânica, programada e previsível, mas que busca a presença de Deus e desencadeia no orante um ciclo interminável de sede e saciedade[2].

Desse modo, essa oração converte-se numa espécie prefiguração da eternidade, dito de outro modo, do céu. Nesse sentido, na oração podemos experimentar como que uma suspensão do tempo e um pouquinho de eternidade. Aquela tensão escatológica entre o “já” e o “ainda não” que o cristão vive com a virtude da esperança. Já podemos experimentar a vida divina aqui, mas ainda não estamos na plenitude da graça.

Prefiguração. Esta palavra pode não aparecer explícita nos Evangelhos, mas está presente em sua narrativa. Desde a encarnação do Verbo, a gestação de Jesus no ventre de Maria, passando pelo Monte Tabor e o evento da Transfiguração. Prefigurar, demonstrar o que está por vir, dar um “gostinho” da vida divina. Mas, repito, tudo se dá pela oração na perspectiva do conhecimento de Deus. Pois, corremos de o risco de orar, orar e não conhecer a Deus. Como nos narra o Evangelho de João: “Vós adorais o que não conheceis” (4, 22). Assim, temos com este texto, que é possível adorar sem conhecer. Que isto não se passe conosco, mas cresçamos na oração e no conhecimento [de Deus].

Tal conhecimento, inevitavelmente, provoca no orante um deslumbramento, um estupor, extasiamento ante a presença de nosso Deus. Tamanha beleza! Percebemos que Ele é e nós não. E só podemos ser naquele que é, nEle! Assim, dá-se início um processo de uma liturgia de adoração. Espontânea. O ato de adoração surge como um impulso natural diante do Sumo Bem e Sumo Belo[3]. Isto o fez Pedro no Tabor, absorto na esfera de beleza e luz com que foi envolvido ao contemplar Nosso Senhor em seu corpo glorioso. A adoração fluiu de seu interior, mas tomou conta também de seu corpo que desejava ficar ali, inerte neste movimento de amor: “É bom estarmos aqui” (Mt 17, 4). O orante descobre a beleza que é Deus e que é estar com ele. Mas como Deus sempre nos ama primeiro, também é Ele quem por primeiro se encanta conosco, quando, por exemplo, na Criação, vê que tudo é bom/belo.

A todo instante vemos Jesus nos convidando a uma vida muito maior do que a nossa que vivemos aqui nesta terra. Isto não significa negar ou desprezar esta vida, nossos corpos ou a realidade material, mas implica dizer que o que somos, o para quê e para onde fomos criados está para além desta realidade efêmera e passageira. Existe uma beleza, uma “formosura que excede a toda formosura”[4] à qual somos convidados a nos dirigirmos. São João da Cruz disse, certa vez, que “o amor não cansa nem se cansa”. Parafraseando este grande santo, diria que também a beleza não cansa nem se cansa. Qualquer outra beleza, aqui nesta terra, um dia passará, nos aborrecerá ou cansará, porque nada, aqui, nos satisfaz indefinida e completamente. A verdade e a beleza de Deus jamais se esgotam nem cessam de nos encantar e preencher a existência.

Estas foram palavras muito simples que tentaram traduzir – de um modo mais simples ainda – a realidade que nos espera a todos. Mas fiquemos cientes de que nem sequer alcançamos de raspão aquilo que desejamos falar aqui. Como aqueles dois monges de quem nos fala H. Franck, citado por Frei Raniero Cantalamessa em seu livro Contemplando a Trindade[5]: os amigos monges se perdiam em longas conversas sobre como seria o céu. Então, fizeram um pacto: aquele que morresse primeiro retornaria para dizer ao outro se o céu era ou não como eles imaginavam. Um deles morreu e, depois de um tempo, aparece para o amigo que pergunta se era igual. Sem resposta. Pergunta, então, se era diferente. Sem resposta. Depois a alma do amigo diz: Totaliter aliter – que significa: é totalmente outra coisa! Nesse instante o amigo compreendeu que o céu é ainda infinitamente muito mais do que tudo que ele pode imaginar!



[1] Cf. Pensamentos, nº 147.

[2] Cf. SOUSA, Ronaldo José de. O pregador orante, p. 21.

[3] Beleza e bondade são derivadas da mesma raiz grega: Kalón.

[4] Cf. Santa Teresa de Jesus. Poesias. In.: Ante a formosura de Deus.

[5] CANTALAMESA, Frei Raniero. Contemplando a Trindade, pp. 96-97.

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