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USANDO O STORYTELLING

Quem não gosta de uma boa história? Acredito que todos gostamos. Mais ainda se elas forem bem contadas, com vivacidade, interação, visual, clímax e pontos de viragem na história das personagens; daquelas que conseguem despertar emoções, que se utilizam de um diálogo realista e que têm um certo apelo aos sentimentos, além de um personagem com quem o público consegue se identificar, seja por causa de seus conflitos e dilemas, seja pelos anseios e escolhas etc.

Pois bem, poderia até parecer que estamos falando aqui de algum filme ou de um livro de romance. Na realidade, estas boas histórias, bem narradas e transmitidas, com todos estes elementos que tocam a nossa razão, mas que passam antes, pela via do coração, também podem se fazer presentes – de um modo adequado e pertinente – nas pregações que realizamos. E é sobre isto que pretendemos abordar a seguir: como utilizar as narrativas como ferramentas para um incremento da oratória sacra.

Uma excelente maneira de tornar a pregação mais compreensível, penetrante e envolvente é torná-la tão leve como se estivéssemos em uma conversa de amigos, pois, no fim e ao cabo, é disso que se trata. Isso não implica dizer que a pregação não possa ou não deva ter um conteúdo mais formativo e exigente, por exemplo, em termos de reflexão. Mas é uma sabedoria por parte do pregador conseguir tornar os conteúdos – mesmo os mais densos e graves – em algo mais compreensível e melhor assimilável por parte daqueles que vierem a escutar a pregação. Dos irmãos mais eruditos aos menos estudados, a Palavra de Deus anunciada deve chegar a todos de uma forma contundente e, diria mesmo, inesquecível, gerando arrependimento, conversão, perseverança, ardor missionário e tudo o mais que uma pregação inspirada produz em quem por ela se deixa interpelar.

Estas narrativas têm sido chamadas modernamente de storytelling e estão sendo muito empregadas em ambientes externos ao mundo da pregação e da oratória sacra. Parece que os ambientes, até então estranhos ou distanciados da religião, começaram por descobrir o poder que uma boa história tem de agregar valor. Descobrem que, para além dessa sociedade técnico-científica, os indivíduos também se comunicam e são marcados pelos afetos, valores e pela necessidade de sentido e significado. Ora, aqueles que anunciamos a Boa Nova, já há muito compreendemos através dos textos sagrados e dos ensinamentos da Igreja essa necessidade humana em dar rumo e sentido à própria existência. Por isso anunciamos. Por que, então, não se valer deste salutar recurso e utilizar o storytelling voltado à pregação? Assim, este movimento de valorização da “contação” de histórias – como alguns gostam de chamar – começamos a perceber que ganha espaço entre ministros da palavra[1], os pregadores, os quais podem experimentar um empoderamento de suas prédicas quando se dispõem a lançar mão deste recurso.

A palavra de origem inglesa Storytelling pode significar para o nosso idioma “narrativa”. De igual forma, não é equivocada a expressão “contação de histórias”, pois o storytelling está relacionado exatamente à essa capacidade de contar histórias (tell a story). A diferença está em que não se trata de simplesmente contar qualquer história, mas que estas sejam relevantes de um modo que chegue ao coração e toque os sentimentos dos ouvintes. Portanto, falamos de histórias autênticas, reais e também testemunhais. Para este método, podemos nos valer, além da própria palavra narrada, ainda de recursos audiovisuais e outros elementos que enriqueçam a narrativa. Trata-se, pois, tanto de saber o como contar, quanto sobre o que contar. Para a narrativa de contação bíblica pesa, sobremaneira, o conteúdo, mas, também, o modo com que se vai apresentar-narrar o texto ou o objeto da narrativa a ser pregada. Assim, storytelling consiste no ato de contar histórias com vistas a transmitir uma mensagem.

Na verdade, este método não é nenhuma novidade, pois sabemos que contar histórias sempre esteve presente na prática dos indivíduos desde tempos primitivos. Veja, por exemplo, toda a tradição oral dos povos antigos para transmitir seus costumes, crenças, valores morais e religiosos etc. No entanto, embora contar histórias seja mais antigo do que a escrita, nestes últimos anos recentes, as narrativas vêm adquirindo uma importância capital nas apresentações e palestras das mais diversas áreas de expressão (cinema, literatura, games, propagandas, até apresentações comerciais e fechamento de negócios).

Também no que toca à pregação e oratória sacra, ela começa a ser utilizada com maior sistematicidade. Bem, talvez o melhor termo seja “resgatada” ou “aprimorada”, pois, é algo que muitos de nós já devemos ter feito ou presenciado alguma vez em alguma pregação, embora, quem sabe, ainda de uma maneira não intencional, elaborada e “roteirizada”, senão de forma espontânea e assistemática. Além disso, está mesmo nas raízes bíblicas o caráter de narrativa e contação de histórias. Vejamos o povo hebreu e o seu perene “fazer memória” da sua história de salvação e libertação, narrando, geração após geração, como Deus livrou o povo da escravidão. Se avançarmos nos textos sagrados, chegando aos Evangelhos, nos depararemos com as parábolas de Jesus. De uma forma ou de outra, a narrativa sempre está presente. Na Criação, temos a narrativa das origens do mundo. Na abertura do Evangelho de João, ele também nos apresenta uma narrativa criadora. São João é ainda chamado de o teólogo do testemunho[2] justamente porque o modo como ele narra chega a parecer que ele mesmo estava lá presenciando tal momento.



[1] Usamos a palavra ministro em sentido lato. Sabe-se que, a rigor, o ministro propriamente da Palavra é o sacerdote. Quando empregamos este termo, o mesmo não entra em choque com a hierarquia, mas tão somente quer se referir aquele irmão ou irmã que se dedica ao ministério de pregação, como costuma ser chamado este serviço nos quadros da RCC.

[2] JARAMILLO, Pe. Diego. Cómo dar testimonio, p. 9.

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